“O mostrengo que está no fundo do mar Na noite de breu ergueu-se a voar; À roda da nau voou três vezes, E disse: «Quem é que ousou entrar Nas minhas cavernas que não desvendo, Meus tectos negros do fim do mundo?» E o homem do leme disse, tremendo: «El-Rei D. João Segundo!» «De quem são as velas onde me roço? De quem as quilhas que vejo e ouço?» Disse o mostrengo, e rodou três vezes, Três vezes rodou imundo e grosso, «Quem vem poder o que só eu posso, Que moro onde nunca ninguém me visse E escorro os medos do mar sem fundo?» E o homem do leme tremeu, e disse: «El-Rei D. João Segundo!» Três vezes do leme as mãos ergueu, Três vezes ao leme as reprendeu, E disse no fim de tremer três vezes: «Aqui ao leme sou mais do que eu: Sou um Povo que quer o mar que é teu; E mais que o mostrengo que a minha alma teme E roda nas trevas do fim do mundo, Manda a vontade, que me ata ao leme, de El-Rei D. João Segundo!»”
Maior do que nós, simples mortais, este gigante foi da glória dum povo o semideus radiante. Cavaleiro e pastor, lavrador e soldado, seu torrão dilatou, inóspito montado, numa pátria... E que pátria! A mais formosa e linda que ondas do mar e luz do luar viram ainda! Campos claros de milho moço e trigo loiro; hortas a rir; vergéis noivando em frutos de oiro; trilos de rouxinóis; revoadas de andorinhas; nos vinhedos, pombais: nos montes, ermidinhas; gados nédios; colinas brancas olorosas; cheiro de sol, cheiro de mel, cheiro de rosas; selvas fundas, nevados píncaros, outeiros de olivais; por nogais, frautas de pegureiros; rios, noras gemendo, azenhas nas levadas; eiras de sonho, grutas de génios e de fadas: riso, abundância, amor, concórdia, Juventude: e entre a harmonia virgiliana um povo rude, um povo montanhês e heróico à beira-mar, sob a graça de Deus a cantar e a lavrar! Pátria feita lavrando e batalhando: aldeias conchegadinhas sempre ao torreão de ameias. Cada vila um castelo. As cidades defesas por muralhas, bastiões, barbacãs, fortalezas; e, a dar fé, a dar vigor, a dar o alento, grimpas de catedrais, zimbórios de convento, campanários de igreja humilde, erguendo à luz, num abraço infinito, os dois braços da cruz! E ele, o herói imortal duma empresa tamanha, em seu tuguriozinho alegre na montanha simples vivia – paz grandiosa, augusta e mansa! -, sob o burel o arnês, junto do arado a lança. Ao pálido esplendor do ocaso na arribana, di-lo-íeis, sentado à porta da choupana, ermitão misterioso, extático vidente, olhos no mar, a olhar sonambolicamente... «Águas sem fim! Ondas sem fim! Que mundos novos de estranhas plantas e animais, de estranhos povos, ilhas verdes além... para além dessa bruma, diademadas de aurora, embaladas de espuma! Oh, quem fora, através de ventos e procelas, numa barca ligeira, ao vento abrindo as velas, a demandar as ilhas de oiro fulgurantes, onde sonham anões, onde vivem gigantes, onde há topázios e esmeraldas a granel, noites de Olimpo e beijos de âmbar e de mel!» E cismava, e cismava... As nuvens eram frotas, navegando em silêncio a paragens ignotas... – «Ir com elas...Fugir...Fugir!...» Ûa manhã, louco, machado em punho, a golpes de titã, abateu, impiedoso, o roble familiar, há mil anos guardando o colmo do seu lar. Fez do tronco num dia uma barca veleira, um anjo à proa, a cruz de Cristo na bandeira... Manhã de heróis... levantou ferro... e, visionário, sobre as águas de Deus foi cumprir seu fadário. Multidões acudindo ululavam de espanto. Velhos de barbas centenárias, rosto em pranto, braços hirtos de dor, chamavam-no... Jamais! Não voltaria mais! Oh! Jamais! Nunca mais! E a barquinha, galgando a vastidão imensa, ia como encantada e levada suspensa para a quimera astral, a músicas de Orfeus: o seu rumo era a luz; seu piloto era Deus! Anos depois, volvia à mesma praia enfim uma galera de oiro e ébano e marfim, atulhando, a estoirar, o profundo porão diamantes de Golconda e rubins de Ceilão!
Que durmam, muito embora, os pálidos amantes, Que andaram contemplando a Lua branca e fria... Levantai-vos, heróis, e despertai, gigantes! Já canta pelo azul sereno a cotovia E já rasga o arado as terras fumegantes...
Entra-nos pelo peito em borbotões joviais Este sangue de luz que a madrugada entorna! Poetas, que somos nós? Ferreiros d'arsenais; E bater, é bater com alma na bigorna As estrofes de bronze, as lanças e os punhais.
Acendei a fornalha enorme — a Inspiração. Dai-lhe lenha — A Verdade, a Justiça, o Direito — E harmonia e pureza, e febre, e indignação; E p'ra que a labareda irrompa, abri o peito E atirai ao braseiro, ardendo, o coração!
Há-de-nos devorar, talvez, o incêndio; embora! O poeta é como o Sol: o fogo que ele encerra É quem espalha a luz nessa amplidão sonora... Queimemo-nos a nós, iluminando a Terra! Somos lava, e a lava é quem produz a aurora!
Toda a sabedoria vem do Senhor e permanece junto dele para sempre. A areia dos mares, as gotas da chuva, os dias da eternidade, quem os poderá contar? A altura do céu, a extensão da terra, o abismo e a sabedoria, quem os poderá medir? A sabedoria foi criada antes de todas as coisas, e a luz da inteligência desde a eternidade. A fonte da sabedoria é a palavra de Deus nos céus; os seus caminhos são os mandamentos eternos. A quem foi revelada a raiz da sabedoria, e quem pode discernir os seus planos? A quem foi manifestada a ciência da sabedoria? E quem pode compreender a riqueza dos seus caminhos? Só há um sábio, sumamente temível: o que está sentado no seu trono. Foi o Senhor quem a criou, quem a viu e a mediu, e a difundiu sobre todas as suas obras, e por todos os homens, segundo a sua liberdade, e a comunicou àqueles que o amam. O amor do senhor é uma sabedoria gloriosa. Ele a comunica àqueles a quem se revela, para que o vejam.