quarta-feira, 10 de março de 2010

Quietude





O porquê de não mergulhar
no rio...
Sentados, na margem,
sob a sombra da árvore
só contemplando, sentados

O medo do gesto
do desconhecido, do oculto
daquilo que está para além
de isto tudo
para lá só existe
aquilo que conhecem
os que mergulham
em suas águas
a coragem
que em nós fenece.

De quem olha para a
porta
com coragem,
vencendo o medo,
a abre, mergulha
na penumbra.

Atrás de si
ela se fecha
Ocultando seus segredos
em silêncio
as águas em breu
guardam
o segredo

Para quem permanece
fica um silêncio
sentado...
definhando, morrendo
aguardando o impulso último...
impulso que nunca chega!

Uma porta
um medo sentado
e o silêncio
de uma desafiadora porta
imóvel
no ar
só se ouve
silêncio!

[ eu por mim permaneço sentado ]



em resposta ao josé luís peixoto

N:d:N:s:d:

domingo, 7 de março de 2010

O menino, as águas e um rio




Foi no Tua
que ele se entregou
às águas do rio
onde ele se rendeu
ainda um menino
seu corpo morreu

mergulhou no rio
o seu mergulho último
nas águas de um rio
entregando-se
todo se entregando
desejando
de novo o útero

Foi no Tua
seu mergulho último
de um spírito ausente
nas águas de um rio
morreu-nos aí
ficou o corpo de um menino !





n:D:n:S:d

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

VitΔ Cruςis

AMOR
LIBERTAÇÃO
“SER” ausência
DESPOJAMENTO
ILUSÃO
sublimação – moral – pudor +++ REALIDADE +++ tentação – instinto – paixão
DOR
SOFRIMENTO
ABANDONO
MEDO
MORTE

na hora de pôr a mesa, éramos cinco



na hora de pôr a mesa, éramos cinco:
o meu pai, a minha mãe, as minhas irmãs
e eu. depois, a minha irmã mais velha
casou-se. depois, a minha irmã mais nova
casou-se. depois, o meu pai morreu. hoje,
na hora de pôr a mesa, somos cinco,
menos a minha irmã mais velha que está
na casa dela, menos a minha irmã mais
nova que está na casa dela, menos o meu
pai, menos a minha mãe viúva. cada um
deles é um lugar vazio nesta mesa onde
como sozinho. mas irão estar sempre aqui.
na hora de pôr a mesa, seremos sempre cinco.
enquanto um de nós estiver vivo, seremos
sempre cinco.


josé luís peixoto

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

+ Ordo Militia Christi +



«A Ordem de Cristo - a mais sublime de todas do mundo.»

Subsolo.

A Ordem de Cristo não tem graus, templo, rito, insígnia ou passe. Não precisa reunir, e os seus cavaleiros, para assim lhes chamar, conhecem-se sem saber uns dos outros, falam-se sem o que propriamente se chama linguagem. Quando se é escudeiro dela não se está ainda nela; quando se é mestre dela já se lhe não pertence. Nestas palavras obscuras se conta quanto basta para quem, que o queira ou saiba, entenda o que é a Ordem de Cristo — a mais sublime de todas do mundo.
Não se entra para a Ordem de Cristo por nenhuma iniciação, ou, pelo menos, por nenhuma iniciação que possa ser descrita em palavras. Nãos se entra para ela por querer ou por ser chamado; nisto ela se conforma com a fórmula dos mestres: «Quando o discípulo está pronto, o Mestre está pronto também.» E é na palavra «pronto» que está o sentido vário, conforme as ordens e as regras.
Fiel à sua obediência — se assim se pode chamar onde não há obedecer — à Fraternidade de quem é filha e mãe, há nela a perfeita regra de Liberdade, Igualdade, Fraternidade. Os seus cavaleiros—chamemos-lhes sempre assim — não dependem de ninguém, não obedecem a ninguém, não precisam de ninguém, nem da Fraternidade de que dependem, a quem obedecem e de que precisam. Os seus cavaleiros são entre si perfeitamente iguais naquilo que os torna cavaleiros; acabou entre eles toda a diferença que há em todas as coisas do mundo. Os seus cavaleiros são ligados uns aos outros pelo simples laço de serem tais, e assim são irmãos, não sócios nem associados. São irmãos, digamos assim, porque nasceram tais. Na ordem de Cristo não há juramento nem obrigação.
Ela, sendo assim tão semelhante à Fraternidade em que respira, porque, segundo a Regra, «o que está em baixo é como o que está em cima», não é contudo aquela Fraternidade: é ainda uma ordem, embora uma Ordem Fraterna, ao passo que a Fraternidade não é uma ordem.


Fernando Pessoa e a Filosofia Hermética - Fragmentos do espólio

Ordo Militia Christi



quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

in CΦRPUS




CΦRPUS

Um momento
Vago gesto.
Calmo respirar,
Maquinal,
Até o subtil, imperceptível,
Pestanejar.

Tudo soa a lamento…
Sinto plenamente,
No momento.
Como inconsciente
Me sai …
Efémero
um …ai.

No meu impensado
Corpo
[no profundo de tudo]
A QUESTÃO,
A PERGUNTA subsiste.
Serei apenas
Esta vacuidade em lamento?
Quem sou EU ?


N: d: N: s: D: