quarta-feira, 27 de outubro de 2010

C A L




A tua avó, coberta pelo silêncio,
Olha para ti, atravessa o tempo,
E segue os passos que dás.


No seu rosto, és ainda a criança
Que brinca no quintal, que correu pelas ruas
E que tem de proteger.
Naquela idade em que a memória te acompanha
As avós esperam, feitas de ternura,
Têm colo para dar.


Elas conhecem os caminhos que nasceram antes de ti
E adormecem sozinhas, cismam nos dias que não têm fim
Sentem as veias nas mãos, cumprem os seus rituais,
Lembram um mundo só delas, existem por detrás da cal.


Sem terem mal


Chegará um dia em que o silêncio encontrará
O tempo, o teu rosto
Por detrás da cal

jppais

segunda-feira, 18 de outubro de 2010




APOTEOSE DO [des]APEGO

pela falta
que me não fazes,
o
absurdo
de
[te] sentir
em mim
como
ausência


3[72]

sexta-feira, 8 de outubro de 2010



2 7 3 .

APOTEOSE DO DESAPEGO

Fazes-me falta,
pela falta
que me não fazes.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

portugal



O português é capaz de tudo, logo que não lhe exijam que o seja.
Somos um grande povo de heróis adiados. Partimos a cara a todos os ausentes, conquistamos de graça todas as mulheres sonhadas, e acordamos alegres, de manhã tarde, com a recordação colorida dos grandes feitos por cumprir. Cada um de nós tem um Quinto Império no bairro, e um auto-D. Sebastião em série fotográfica do Grandela. No meio disto (tudo), a República não acaba.
Somos hoje um pingo de tinta seca da mão que escreveu Império da esquerda à direita da geografia. E difícil distinguir se o nosso passado é que é o nosso futuro, ou se o nosso futuro é que é o nosso passado. Cantamos o fado a sério no intervalo indefinido. O lirismo, diz-se, é a qualidade máxima da raça. Cada vez cantamos mais um fado.
O Atlântico continua no seu lugar, até simbolicamente. E há sempre império desde que haja imperador.

fernando pessoa – sobre portugal

quinta-feira, 22 de julho de 2010

x v .


1 5 .

Conquistei, palmo a pequeno palmo,
o terreno interior que nascera meu.
Reclamei, espaço a pequeno espaço,
o pântano em que me quedara nulo.
Pari meu ser infinito,
mas tirei-me a ferros de mim mesmo.
*
*
b e r n a r d o s o a r e s

quinta-feira, 15 de julho de 2010

SÊ DIFERENTE





A Tudo
Te torna
Indiferente.

Passa por entre a multidão,
como vento
[omnisciente]
que nada sente.


(algo de Bernardo Soares, num rótulo de 7up)


3 7 2.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

LUC∆S 7 - 28



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