sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

I N T E R V A L O



1 8 2 .
Antefalhei a vida, porque nem sonhando-a ela me apareceu deleitosa.
Chegou até mim o cansaço dos sonhos... Tive ao senti-lo uma sensação
externa e falsa, como a de ter chegado ao término de uma estrada infinita.
Transbordei de mim não sei para onde, e aí fiquei estagnado e inútil. Sou qualquer
coisa que fui. Não me encontro onde me sinto e se me procuro, não sei quem é que
me procura. Um tédio a tudo amolece-me.
Sinto-me expulso da minha alma.
Assisto a mim. Presenceio-me. As minhas sensações passam diante de não
sei que olhar meu como coisas externas. Aborreço-me de mim em tudo. Todas as
coisas são, até às suas raízes de mistério, da cor do meu aborrecimento.
Estavam já murchas as flores que as Horas me entregaram. A minha única
acção possível é vê-las desfolhando lentamente. E isso é tão complexo de
envelhecimentos!
A mínima acção é-me dolorosas como uma heroicidade. O mais pequeno
gesto pesa-me no ideá-lo, como se foras uma coisa que eu realmente pensasse em
fazer.
Não aspiro a nada. Dói-me a vida. Estou mal onde estou e já mal onde penso
em poder estar.
O ideal era não ter mais acção do que a acção falsa de um repuxo – subir para
cair no mesmo sítio, brilho ao sol sem utilidade nenhuma a fazer som no silêncio da
noite para que quem sonhe pense em rios no seu sonho e sorria esquecidamente.
*
o livro - b. soares

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Olhar - me



Olhar-me

A divagar
Para lado nenhum
Sonho
Paradamente quieto

Navio ancorado (amarrado por atado)
Devorando-me já ferrugem
Com tanto mar
Mar tanto
Todo o mar
Para navegar
Que
Moribundo
Me sonho
Sulcando



2 1 1 .

Perfeita vacuidade



Pego na caneta
Para isto escrever
Pura inutilidade
Sucessão vácua de palavras
As que aqui ficam
Do princípio
Até ao
fim

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

inquietação



Sempre esta inquietação sem propósito, sem nexo, sem consequência,
Sempre, sempre, sempre,
Esta angústia excessiva do espírito por coisa nenhuma,
Na estrada de Sintra, ou na estrada do sonho, ou na estrada da vida...


a.campos

terça-feira, 4 de janeiro de 2011



a vida é um sonho, pensou. A morte é o despertar.
passamos um universo inteiro a flutuar no vácuo da não existência.
a vida é a anomalia, a morte é o regresso ao estado original; a vida é um sopro e a morte é o ar.


j r s a n t o s

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

dOrMe





Dorme, mãe Pátria, nula e postergada

E, se um sonho de esperança te surgir,

Não creias nele, porque tudo é nada,

E nunca vem aquilo que há-de vir.


P E S S O A

terça-feira, 30 de novembro de 2010

F Á T U O



Tudo parece
Tudo assemelha
a inverno marfim
! perece útero do inferno !

Labaredas frias
fátuas finais

Luz que brilha
baça
luz que sussurra
frio SEGREDO seu

Luz que queima
(expiando)
improváveis pecados

Em vida
vividos todos os factos
fátuos fatais
(os paro a todos)
alheios
bastardos meus.

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