sexta-feira, 23 de maio de 2008

ROSEAE CRUCIS


E quando vos perguntarem
Onde fica o Templo em que
Floresce a Cruz
Direis; nós somos esse Templo
E sobre nós a Rosa Vive
E alimenta a Cruz que é o Mundo.

JOANUS + FRATER

quarta-feira, 21 de maio de 2008

AGOSTINHO DA SILVA

O Pensador

Não há nenhuma vida verdadeiramente intelectual em que a polémica não seja um acidente, um desnível entre o engenho e a cultura adquirida, por um lado, e, por outro, o meio ambiente; o pensador não é, por estrutura, polemista, embora não fuja ante a polémica, nem a considere inferior; o seu domínio é no campo da paz, não entre os instrumentos de guerra; quando a batalha se oferece sabe, como o filósofo antigo, marchar com a calma e a severa repressão dos instintos que o mundo inteiro, ante a sua profissão, tem o direito de exigir; o seu dever de cidadão impõe-lhe que tome, ao ecoar da voz bárbara, a lança que defende as oliveiras sagradas e os rítmicos templos. A sua linha, porém, o fio de cumeadas por que se alongam os seus passos melhores comportam apenas uma invenção superadora, um perpétuo oferecer aos seus amigos humanos de toda a descoberta possibilidade de um caminho mais belo e mais nobre. Vê-se como um guia e um observador de horizontes que se estendam para além dos limites do mar e dos limites do céu; a sua missão é a de pôr ao alcance de todos os que novamente contemplaram os seus olhos e de os ajudar a percorrer a estrada que abriu ou desvendou; com toda a humildade, todo o carinho que provêm de ter medido a imensa distância que ainda o separa de Deus e de ter aprofundado a tristeza e a treva em que se debatem e se amesquinham seus irmãos; inteligência e caridade não andam longe uma da outra quando são ambas verdadeiras.
Agostinho da Silva, in 'Textos e Ensaios Filosóficos'

sexta-feira, 16 de maio de 2008

IMPÉRIO QUINTO



O Grande Mito Nacional

Há uma espécie de propaganda com que se pode levantar o moral de uma nação - a construção ou renovação e a difusão consequente e multímoda de um grande mito nacional. De instinto, a humanidade odeia a verdade, porque sabe, com o mesmo instinto, que não há verdade, ou que a verdade é inatingível. O mundo conduz-se por mentiras; quem quiser despertá-lo ou conduzi-lo terá que mentir-lhe delirantemente, e fá-lo-á com tanto mais êxito quanto mais mentir a si mesmo e se compenetrar da verdade da mentira que criou. Temos, felizmente, o mito sebastianista, com raízes profundas no passado e na alma portuguesa. Nosso trabalho é pois mais fácil; não temos que criar um mito, senão que renová-lo. Comecemos por nos embebedar desse sonho, por o integrar em nós, por o incarnar. Feito isso, por cada um de nós independentemente e a sós consigo, o sonho se derramará sem esforço em tudo que dissermos ou escrevermos, e a atmosfera estará criada, em que todos os outros, como nós, o respirem. Então se dará na alma da nação o fenómeno imprevisível de onde nascerão as Novas Descobertas, a Criação do Mundo Novo, o Quinto Império. Terá regressado El-Rei D. Sebastião.
Fernando Pessoa, in 'Resposta do Inquérito «Portugal, Vasto Império»'

terça-feira, 13 de maio de 2008

SALVE REGINA

Salve, Regina, Mater misericordiæ, vita, dulcedo et spes nostra salve!
Ad te clamamus, exsules filii Evæ.
Ad te suspiramus gementes et flentesin hac lacrimarum valle.
Eia ergo, advocata nostra, illos tuos misericordes oculos ad nos converte.
Et Jesum, benedictum fructum ventris tui,nobis post hoc exsilium, ostende.
O clemens, o pia, o dulcisVirgo Maria!
Ora pro nobis, sancta Dei Genitrix, ut digni efficiamur promissionibus Christi.
Amen.

sexta-feira, 9 de maio de 2008

O Templo



Do vale à montanha,Da montanha ao monte,
Cavalo de sombra,Cavaleiro monge,
Por casas, por prados.
Por quinta e por fonte,Caminhais aliados.
Do vale à montanha,Da montanha ao monte,
Cavalo de sombra,Cavaleiro monge,
Por penhascos pretos,
Atrás e defronte,Caminhais secretos.
Do vale à montanha,Da montanha ao monte,
Cavalo de sombra,Cavaleiro monge,
Por plainos desertos
Sem ter horizontes,Caminhais libertos.
Do vale à montanha,Da montanha ao monte,
Cavalo de sombra,Cavaleiro monge,
Por ínvios caminhos,
Por rios sem ponte,Caminhais sozinhos.
Do vale à montanha,Da montanha ao monte,
Cavalo de sombra,Cavaleiro monge,
Por quanto é sem fim,
Sem ninguém que o conte,
Caminhais em mim.

Fernando Pessoa

domingo, 4 de maio de 2008

Mãe




No plaino abandonado
Que a morna brisa aquece,
De balas trespassado
- Duas de lado a lado
-jaz morto e arrefece.
Raia-lhe a farda o sangue.
De braços estendidos,
Alvo, louro, exangue,
Fita com olhar langue
E cego os céus perdidos.
Tão jovem! Que jovem era!
(Agora que idade tem?)
Filho único a mãe lhe dera
Um nome e o mantivera:
"O menino da sua mãe".
Caía-lhe da algibeira
A cigarreira breve.
Dera-lhe a mãe está inteira
E boa a cigarreira.
Ele é que já não serve.
De outra algibeira alada
Ponta a roçar o solo
A brancura embainha de
De um lenço ...
Deu-lho a criadaVelha que o trouxe ao colo.
Lá longe, em casa, há a prece:
"Que volte cedo e bem!
"(Malhas que o Império tece!)
Jáz morto e apodrece
O menino de sua mãe.

Maria